Nova encíclica mostra Papa social

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Nos próximos dias, como revelou o próprio Papa, vai surgir em público a terceira encíclica do pontificado, desta feita centrada especificamente em temas sociais. O enquadramento deste documento no magistério de Bento XVI e no conjunto da Doutrina Social da Igreja ocupa, esta semana, o Dossier apresentado pela Agência ECCLESIA, que aponta alguns dos temas que, à luz das intervenções do Papa, nesta área, serão abordadas na Caritas in veritate.

"Este documento, que tem a data de 29 de Junho, solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, pretende aprofundar alguns aspectos do desenvolvimento integral na nossa época, à luz da caridade na verdade", disse esta Segunda-feira aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, para a recitação do Angelus.

O Papa indicou que serão retomados os temas tratados na "Populorum Progressio", documento de referência para a Doutrina Social da Igreja, publicado em 1967 por Paulo VI.

Responsáveis do Vaticano já adiantaram que, neste texto, Bento XVI manifestará a necessidade de potencializar um humanismo que concilie o desenvolvimento social e económico com o respeito pelo ser humano, que diminua as diferenças entre ricos e pobres.

Fala-se desta encíclica desde 2007, mas a sua publicação atrasou-se por dois motivos principais: por questões de tradução, já que o texto sairá também em chinês, e devido à recente crise económica internacional.

As outras duas encíclicas de Bento XVI são "Deus caritas est", de 2006, e "Spe salvi", de 2007, centradas nas "virtudes teologais" da caridade e da esperança.

Bento XVI repete a palavra "caridade", abordando desta feita matérias ligadas ao mundo do trabalho, da economia e do desenvolvimento. Num mundo ainda abalado pela crise financeira que fez desmoronar várias das coisas que dava como certas, o Papa apresenta regras para o mundo económico e exigências de solidariedade.

Já em 1985, numa intervenção que viria a ganhar novo sentido à luz dos últimos acontecimentos da vida económica, o então Cardeal Joseph Ratzinger previa a crise no sistema financeiro mundial. Numa conferência intitulada "Market Economy and Ethics", proferida em Roma, a 23 de Novembro de 1985, Joseph Ratzinger disse que o declínio observado ao nível da ética poderia "levar a um colapso das leis do mercado".

Sobre estas temáticas, que levaram a uma revisão do texto, o Papa oferecerá um contributo incontornável para repensar uma economia dominada por paradigmas dominantes que se vieram a revelar um fracasso.

Ética e mercado não estão de costas viradas, para Bento XVI, e vários responsáveis da Igreja têm subscrito a posição de que a actual crise mostra, sobretudo, uma perda de valores. O ser humano não deve ser um escravo das regras de mercado ou, pior ainda, estar submetido à crença de que as leis desse mercado são boas em si mesmas e levam, necessariamente, ao bem, sem depender da moralidade de cada sujeito.

"Os dois pressupostos não estão completamente errados, como demonstram os sucessos da economia de mercado, mas não são aplicáveis sem limites nem justos em absoluto, como parece evidente pelos problemas da economia mundial actual", escrevia o Papa... há 24 anos.

Tal como Peter Koslowski, Bento XVI acredita que a economia não se rege por leis económicas, apenas, mas por homens. A falta de ética nas estruturas económicas teria levado, por isso, à actual situação de crise.

A liberdade económica não é, assim, uma condição suficiente em si mesma para o sucesso. Aliás, na linha da tradição da Igreja, o actual Papa não vê no capitalismo um modelo único para a economia, embora não entenda a actual crise como uma crise de sistema.

A Igreja assume-se como equidistante face ao capitalismo e ao marxismo, sistemas que Bento XVI acusa de terem fracassado, de um ponto de vista ideológico, por causa das suas promessas de criar um mundo melhor deixando Deus de lado ou "entre parênteses".

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Fonte: Agência Eclesia
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